Tuesday, October 10, 2006

Poesia Brasileira - Panorama de Leitura

Poetas que eu amo - os "meus":

Manuel Bandeira

Olavo Bilac

Li, gostei, quero ler mais:

Alphonsus de Guimaraens

Cecília Meireles

Gonçalves Dias

Gregório de Matos

Manoel de Barros

Roseana Murray

Tomás Antonio Gonzaga

Preciso ler mais para formar opinião:

Adélia Prado

Carlos Nejar

Gulherme de Almeida

João Cabral de Melo Neto

Murilo Mendes

Vicente de Carvalho

Li o suficiente:

Álvares de Azevedo

Bruna Lombardi

Carlos Drummond de Andrade

Castro Alves

Ferreira Gullar

Li o suficiente e a opinião não é essas coisas:

Casimiro de Abreu

Precisaria ler mais porém falta coragem:

Hilda Hilst

Marly de Oliveira

Implico com:

Mario Quintana

Vinicius de Moraes

Ainda não li (*):

Alberto de Oliveira

Augusto dos Anjos

Basílio da Gama

Cláudio Manuel da Costa

Cora Coralina

Elizabeth Veiga

Fagundes Varela

Francisca Júlia

Henriqueta Lisboa

Jorge de Lima

Mario Faustino

Raimundo Correia

Santa Rita Durão

Ainda não li, embora esteja tentando (não é por falta de procurar um livro!):

Gilka Machado

* Significa, aqui, não ter lido um volume considerável de poemas do autor.

Tuesday, October 03, 2006

Literatura Brasileira - Panorama de Leitura

Escritores dos quais li quase tudo:
José de Alencar
Graciliano Ramos
Clarice Lispector
João Guimarães Rosa
Lygia Fagundes Telles

Li, gostei, e quero ler mais:
Autran Dourado
Bernardo Élis
José Lins do Rêgo
Josué Montello
Lima Barreto
Lúcio Cardoso
Monteiro Lobato
Stella Florence

Preciso ler mais para formar opinião:
Carlos Nejar
J.J. Veiga
Lúcia Castello Branco
Márcia Denser
Nélida Piñon
Rachel de Queiroz

Li o suficiente :
Aníbal Machado
Antonio Callado
Marques Rebelo

Li o suficiente e a opinião não é essas coisas:
Oswaldo França Jr.
Oswald de Andrade (uma fraude)

Ainda não li o suficiente e não sei se terei coragem:
Ignácio de Loyola Brandão
Rubem Fonseca
Sonia Coutinho

Li, não gostei, mas em consideração aos amigos preciso revisitar:
Machado de Assis

Ainda não li:
Campos de Carvalho (na pilha dos-livros-a-ler)
Cornélio Penna
José Geraldo Vieira
Josué de Castro
Maria Adelaide Amaral
Murilo Rubião
Ondina Ferreira
Osman Lins
Pedro Nava
... e outros

Wednesday, September 06, 2006

Lampejos do Farol: Bergson, Maia e o "Descobridor dos Sete Mares"

Considerada por muitos a magnum opus daquela grande voz da filosofia brasileira, Sebastião Rodrigues Maia, esta canção simples, porém tocante, narra a trajetória mental de um homem em busca de conhecimento verdadeiro, uma verdadeira odisséia intelectual guiada pela "luz azul" da revelação intuída. Aqui encontramos a mão do grande e injustiçado mestre Henri Bergson direcionando as rimas de seu discípulo "Tim", tal como a força do elán vital nos direciona rumo à novos degraus de consciência.

Uma luz azul me guia
Com a firmeza e os lampejos
Do farol.

A verdade intuída vem diretamente ao "descobridor dos sete mares" assim como o golpe iluminador do farol revela imediatamente a costa ao navegador; à força que guia o viajor se dá o nome de "luz azul"; a luz sendo imaterial- uma manifestação de energia que transcende as barreiras do universo meramente físico- e a cor azul, como todos sabem, sempre foi símbolo dos céus e da busca pela verdade. A luz vem em "lampejos", mostrando que no estágio que agora estamos nada podemos obter da intuição senão breves vislumbres, pequenas iluminações momentâneas; mas é de suma importância notar que a propriedade primária da luz é "firmeza"; apenas o conhecimento intuído tem o peso da realidade, tem verdadeira firmeza; a luz firme oferece ao viajante uma percepção mais profunda da realidade que qualquer uma oferecida por mera análise de percepções sensoriais.

E os recifes lá de cima
Me avisam os perigos de chegar

Os recifes- brutais representantes da mera percepção daquilo que os sensos tem como físico e concreto- tentam dissuadir o explorador de prosseguir em sua odisséia. A luz ilumina; os recifes "avisam os perigos de chegar". O fato deles virem "lá de cima" é incriminatório à religião institucionalizada, que embora pregue a irrealidade do mundo também não desiste de sua busca pela verdade através do raciocínio ao invés de se entregar completamente ao êxtase dionisíaco do misticismo que apreende diretamente da natureza, diretamente do elán vital, as propriedades reais do universo.

Angra dos Reis e Ipanema,
Iracema, Itamaracá,
Porto Seguro, São Vicente,
Braços abertos sempre a esperar

Sempre o insuperável poeta, Maia representa os objetivos que a humanidade busca- transcendência, auto-realização, conhecimento da própria significância, e finalmente o sublime golpe de vista através do qual o homem intui a essência do elán vital- como praias, como os majestosos litorais de seu país nativo. Estes objetivos finais de cada homem e mulher aguardam com "braços abertos sempre a esperar"; nada devemos temer- desde que o espírito tenha coragem, a transcendência aguarda cada um, a vontade manifesta do universo será cumprida em seu devido tempo.

Pois bem cheguei,
Quero ficar bem à vontade,
Na verdade eu sou assim.
Descobridor dos sete mares,
Navegar eu quero.

A canção atinge seu primeiro clímax, e um coro se junta à voz de Maia (como se representando as vozes de toda a humanidade se juntando a ele em celebração) quando o viajor chega ao seu destino final e finalmente se encontra "bem à vontade", tendo afinal descoberto a essência de seu próprio ser e, se reconhecendo verdadeiramente pela primeira vez, podendo dizer (com certeza e êxtase "na verdade eu sou assim". Porém, o "Descobridor dos sete mares" ainda sente que há algo ainda a ser descoberto, um novo mar, por assim dizer, que pode ainda ser navegado. A sua vontade de navegar, mesmo tendo acabado de chegar, revela o enigma do absoluto- uma vez tendo atingido o patamar de consciência que ele achava o mais elevado e final, o viajante descobre que ainda existe mais mar para ser navegado.

Uma lua me ilumina
Com a clareza e os brilhos do cristal
Transando as cores desta vida
Vou colorindo a alegria de chegar

O descobridor, tendo atingido um patamar mais elevado, intui mais claramente a realidade do que conseguia no começo. A pálida luz azul agora se torna para ele algo sólido e inescapável como uma lua- o farol que antes iluminava poucos instantes, provendo meros "lampejos", agora cobre todo o mundo do viajor como o luar domina a noite. A firmeza da revelação se consolida, se torna bela e concreta como um cristal, "transando as cores desta vida", "colorindo a alegria de chegar". A revelação intuída agora influencia completamente a trajetória do descobridor, tocando toda fibra, todo centímetro, toda "cor" de seu universo, e com essa promessa colorida acalentando no coração do intrépido explorador uma esperança de chegar num novo patamar, num novo nível de consciência, de conhecimento- quiçá, de humanidade!

Boa Viagem e Ubatuba
Grumari, Mengo e Guarujá
Praia Vermelha, Ilha Bela
Braços abertos sempre a esperar

E são esses novos níveis, novas etapas, novos mundos que aguardam, "braços abertos sempre a esperar" o descobridor dos sete mares. A repetição do coro e dos primeiros dois versos após este ponto sugere algo cíclico na natureza do processo. Quem sabe a humanidade nunca chegue a uma consumação completa de seu potencial, mas viva sempre num estado de eterno retorno, de evolução, crescimento, repetição, o elán vital movendo nosso destino não numa linha reta mas num círculo. Um glorioso círculo, encontrando novamente os mesmos tesouros, as mesmas praias, uma aventura perpétua para o "descobridor dos sete mares", descobrindo a si mesmo, e ao universo.

Sunday, July 16, 2006

Literatura Fantástica

Diz-se de obra literária... que transcende o real, baseando-se no sonho, no sobrenatural, na magia, no terror ou na ficção científica" (Larousse Cultural, vol. 10, pág. 2351).
Se lermos atentamente esta definição, descobriremos que o conceito de "literatura fantástica" é mais amplo do que poderíamos pensar a princípio. Narrativas que incluem sonhos, por exemplo, cobrem desde contos de Júlio Cortázar ( A Noite de Barriga para Cima ) ou Kipling ( O Menino dos Gravetos) até fantasias oníricas como uma das novelas de C. S. Lewis, O Grande Abismo. O sobrenatural está em Lygia Fagundes Telles ( O Encontro; A Presença), Algernon Blackwood (O Quarto Ocupado; As Asas de Horus) ou em Henry James ( no discretamente melancólico-romântico Os Amigos dos Amigos).
Aquilo a que nos acostumamos a classificar como "terror" - um sentimento de medo ou apreensão intensificados diante do desconhecido, do insólito ou do potencialmente hostil - pode estar presente sem qualquer elemento do sobrenatural. Muitos dos contos de Edgar Allan Poe são desse tipo: aterrorizantes, mas desprovidos de alusões ao que é inumano. Assim A Queda da Casa de Usher; A Pipa de Vinho Amontillado; O Coração Acusador. Na mesma categoria, outra vez a brasileira Lygia Fagundes Telles com o já clássico Venha Ver o Pôr-do-Sol.
Contudo, a combinação entre sobrenatural e terror é fácil de encontrar. O Horla, de Guy de Maupassant; A Boneca, de Blackwood; Meia-Noite; Intrusos; e Fantasmas de Dean R. Koontz; Saco de ossos; O Iluminado, de Stephen King; As Formigas de L. F. Telles; A Marca da Besta (um conto sobre lobisomem) de Kipling; Um Velho Diabo e Drácula de Bram Stoker... e para fechar a fila, duas novelas que merecem qualquer elogio, nenhum sendo exagerado a meu ver: o apavorante A Outra Volta do Parafuso de Henry James e O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson - possivelmente, fora da língua inglesa não existam duas obras tão merecidamente louvadas no gênero - perfeitas.
Identificar a presença da magia numa obra e então percebê-la como literatura fantástica é uma coisa; o enganoso é rotular essa subcategora do fantástico como de exclusivo interesse do público infantil. Quem ainda não mergulhou nAs Crônicas de Nárnia de C. S. Lewis, na série Harry Potter de J. K. Rowling, ou mesmo numa releitura dos irmãos Grimm com a desculpa de que tais obras são "coisa de criança" está se privando de um dos grandes prazeres na leitura do gênero fantástico. Se se faz questão, o elemento da magia também marca presença na literatura "adulta": todo o ciclo arturiano - as lendas, poemas, contos e romances sobre o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda - são plenos de magia. O "leitor adulto" que exige sê-lo pode experimentar Amadis de Gaula (na versão de Affonso Lopes Vieira, mais degustável para o paladar moderno) ou algo shakespeareano: a deliciosa peça Sonho de Uma Noite de Verão.
A última subcategoria do fantástico, a da ficção científica, é , confesso, a de que menos gosto. Ainda assim, há algumas obras, em minha opinião, que valem bem a leitura. Da inglesa Doris Lessing há o segundo volume de uma série que ela escreveu nesse gênero: Os Casamentos Entre as Zonas 3, 4 e 5; um romance isolado, Memórias de um Sobrevivente (a versão de Lessing de um mundo pós-apocalipse) e um conto muito inteligente, recheado de observações curiosas - Informe Sobre a Cidade Ameaçada. Também gostoso de ler é Mundo Perdido, de Valerie Nieman Colander, outro mundo pós-apocalipse; e, pra não dizer que não cito autores homens nesse subgênero, vou de Dean Koontz com O Guardião e Sr. Assassino - sendo o primeiro, para mim, uma pequena obra-prima.

Friday, June 30, 2006

Mulheres Que Eu Amo - Algumas...

Virginia Woolf (1882-1941). Inglesa. Escritora, feminista, ensaísta. Era maníaco-depressiva e, após alguns surtos de loucura e algumas tentativas de suícidio, infelizmente acabou tendo êxito ao mergulhar no Rio Ouse com os bolsos das roupas cheios de pedras.
Era intelectualmente brilhante, o que é demonstrado em seus ensaios, onde apresenta teorias sobre feminismo & literatura que aguçam a inteligência do leitor - Um teto todo seu, Três guinéus - e uma romancista/contista de primeira água: trabalhou seu estilo até alcançar um tom todo pessoal, observável em obras como: A Viagem; Noite e Dia; Mrs. Dalloway; Passeio ao Farol; Orlando; As Ondas, e nos volumes de contos Uma Casa Assombrada e Objetos Sólidos. Existe também uma Virginia memorialista, cujo senso de humor fino, britânico eu diria, pode ser conferido com a leitura de Momentos de Vida e dos Diários (estes, leitura indispensável!). Para quem se apaixonar, e quiser aprofundar os laços com essa mulher extraordinária e atormentada, pode aventurar-se nos "exercícios" de Virginia, seus textos mais antigos, e experimentações, em A Casa de Carlyle e Outros Esboços e também no já citado Objetos Sólidos, que inclui muitos dos seus primeiros contos.
Não há como louvar Virginia Woolf o bastante; porém tudo o que eu poderia dizer seria lugar comum - e Virginia jamais poderá ser comum...
Jane Austen (1775-1817). Inglesa. Romancista. Até onde sei, anglicana, Jane "escreveu pouco, mas com esmero" (H.G. Wells). Escreveu literatura com elementos parcos, fez Orgulho e Preconceito, Emma, Persuasão (que considero os seus melhores romances) de poucos recursos. Esta foi a sua Arte e a medida talvez do seu talento: escrever obras de primeira ordem com um mínimo de ambientes, episódios, figuras; trabalhar com elegância, com refinamento, meia dúzia de coisas, o meio limitado no qual viveu. Não é preciso ser rica, viajar para lugares distantes, ser casada ou ser nobre para produzir ficção de qualidade; Jane Austen provou isso.
Sua arte, porém, é modernamente descartada por pretensos intelectuais, demasiado obtusos para ler nas entrelinhas ou captar as ironias sutis de seus romances. Basta ler a maioria dos críticos(?) de cinema quando resenham um filme baseado na obra dela - cegos, estúpidos, chamando-a de "água-com-açúcar". O caso é que a inteligência de Jane é excessiva para eles...
Que um novo (a) leitor(a) leia. E julgue, observando a tapeçaria perfeita, elaborada, de Jane Austen. E descubra porque um estudioso e crítico do porte de Otto Maria Carpeaux chamou-a de "gênio".
Germaine Greer (1939). Australiana. Professora de Literatura Inglesa (escreveu um livro sobre Shakespeare), feminista, ensaísta, é sempre leitura compensadora, embora eu não endosse todas as suas posições. Meus motivos para admirá-la: a realização e a publicação de A Mulher Eunuco, na década de 1970; a maturidade e a humildade demonstradas quando reviu parte de suas opiniões já na obra Sexo e Destino; seu amor recheado de erudição ao discorrer sobre Shakespeare no ensaio de mesmo título (uma excelente introdução ao dramaturgo inglês!); seu respeito pelos problemas de consciência enfrentados pelos cristãos, respeito ainda mais louvável se nos lembrarmos que ela não é cristã (Greer só desmerece algumas idéias/costumes que lhe parecem prejudiciais às mulheres).
Em minha opinião, seu melhor livro é Mulher: Maturidade e Mudança, gigantesco e abrangente estudo sobre a menopausa e seu impacto na vida das mulheres.
Isabelle Adjani (1955). Atriz francesa. A minha "melhor das melhores". Em geral, ela personifica heroínas temperamentais (Verão Assassino ), frágeis-fortes (A Rainha Margot; Camille Claudel), desesperadamente apaixonadas (A História de Adèle H., seu único filme dirigida pelo mestre François Truffaut, em 1975), ou abnegadas (Nosferatu, O Vampiro da Noite, direção de Werner Herzog, com imagens que parecem pintura abstrata, obras de arte...); porém fez com igual brilhantismo uma esposa submissa-reprimida na refilmagem politicamente correta de Diabolique, onde divide o estrelato com Sharon Stone, contracenando ainda com Kathy Bates (o melhor dessa versão "politicamente correta" é utilizar esta tríade de estrelas, todas ótimas, e relacioná-las de uma forma "correta" ,porém muito mais legal para mim). Com exceção do último filme citado, todas as incursões de Isabelle no cinema americano são um desperdício dela como atriz; há, também, o prazer de vê-la com toques bem humorados (se se puder suportar o desfecho ridículo) em Subway, de Luc Besson, ao lado de Christophe Lambert.
Doris Lessing (1919). Escritora inglesa. Um sexista ácido e exigente como Paulo Francis considerava-a a maior escritora viva em língua inglesa do século XX. O que surpreende em Doris é a sua incessante variedade: consagrada como "escritora feminista" nunca cedeu à armadilha de só escrever o que "boas feministas" escrevem; é verdade que sua personalidade crítica, sua visão implacável (por vezes até cruel) do mundo aflora, sim, em boa parte do que escreveu; mas ela jamais conformou-se à fórmulas e assim, tendo escrito "romances feministas" (vão as aspas porque o conceito é discutível) como O Carnê Dourado (1962), enveredou com naturalidade pelo gênero (malquisto pela crítica dita 'séria') da ficção científica na pentalogia Canopus em Argos: Arquivos, onde pelo menos um volume, o segundo - Os Casamentos Entre as Zonas 3, 4 e 5 - é imaginativo, de um feminismo sem maniqueísmos e até divertido em certas passagens. Como se não fosse o bastante, escreveu romances políticos - outra pentalogia, Filhos da Violência - onde, a meu ver, o senão está no assunto (absolutamente chato para mim) porém revelando a mesma lucidez da autora quando, nessa autobiografia disfarçada, expõe sua desilusão com o partido comunista. Experimentou também escrever com um pseudônimo, já idosa e respeitada, quando procurou editores para um novo livro como se se tratasse de uma estreante: nessa artimanha de Doris, sob o nome "Jane Somers", publicou Diário de uma Boa Vizinha (que ainda não li) e Se os Velhos Pudessem (que não merece um 10, mas 11). Mais recentemente, saíram, dela também Amor, de Novo, romance inusitado e corajoso onde a protagonista é uma mulher de 65 anos que redescobre o amor, e dois volumes da sua autobiografia: Debaixo da Minha Pele e Andando na Sombra, recheado de observações valiosas de DL sobre literatura, sobre feminismo, sobre casamento, a infância e a adolescência num país racista como Zimbabue (naquela época, Rodésia do Sul) e, por último mas não menos importante, sobre o ato de escrever e a carreira de escritora.
Doris Lessing também é autora de um romance provocativo sobre o conceito de doença mental - Roteiro Para um Passeio ao Inferno - e de outro, capaz de incomodar mulheres casadas há muito tempo e possivelmente "conformadas" ao seu "papel social" - O Verão Antes da Queda.

Sunday, June 18, 2006

Quatro Clipes Assustadores

John Santos aqui, o amante de suas almas, seu amigo do coração, seu paladino da justiça, da moral e da cura sexual, vindo para lhes trazer arrepios mil com uma pequena ajuda do YouTube. Existem vídeos musicais bem feitos ao ponto de nos fazerem apreciar ainda mais uma música, e clipes que nos fazem deixar de gostar de algumas músicas, e ainda clipes que, bons ou ruins, simplesmente nos assustam. Aqui estão quatro, em ordem crescente de horror. Desliguem as luzes, peguem sua pipoca e grapete, e vamos lá.

Morrissey- November Spawned a Monster

VILE!

Hoje muitos fãs da Tia Morrissey perguntam porque ela perdeu o rebolado, e não dança mais como antigamente. A resposta está diante de seus olhos: Morrissey gastou todo o seu rebolado e aproximadamente 60% de seus gestos femininos em um só dia de gravação nas areias do deserto. Numa só tarde, dando soquinhos no ar, trepando contra pedras, dançando, requebrando, chutando, desmunhecando e rolando na terra, ele gastou o último de seu rebolado e teve que começar a usar ternos e a realmente fazer sexo ao invés de fazer balançar sugestivamente. Do seu chapéu do início do clipe á camisa transparente semi-aberta, da fita adesiva sobre seu mamilo aos seus empurrões de pelvis contra um rochedo, da letra deprimente aos gemidos dados jogado no chão- poucos terminam de assistir o clipe sem os olhos arregalados. Ou fechados.

Klaus Nomi- Lightening Strikes


I can't stop myself!

E falando em olhos arregalados, este é o estado permanente do rosto de Klaus Nomi (que tem, de fato, um vídeo ainda pior aqui que não postei por causa da má qualidade do vídeo), um alemão apenas marginalmente menos assustador que o próprio Hitler. Por onde começar? O enorme e ombrudo tuxedo de plástico? O cabelo? A maquiagem? O nome dele brilhando no fundo á cada menção de relâmpagos? Note a expressão fuhreriana em seu rosto na parte em que ele canta "I can't stop myself!" Note as luvas de Mickey Mouse, seus clones girando guarda-chuvas no fundo, a gravata de borracha, as botas obstruídas quase totalmente pela fumaça, e a pequena montanha que sua voz sobe a cada coro- não, não, fiquem tranquilos. Ele não virá ás suas casas no meio da noite para devorar seu pequeninos. Nomi morreu de AIDS em 83.

Prince- Batdance

All this and brains too.

Vejamos. Um coro de Batmans lutando uma gangue de Coringas dançantes. Prince alternadamente de preto, jamming no console da Batcaverna e dançando no meio da briga dos Batmen e Coringas com o rosto meio maquiado como o do Coringa e meio maquiado (mais assustadoramente) como o Prince de costume. Algumas clones da Kim Basinger entram na dança e saem após um minuto (se o Prince estivesse te comendo com os olhos como nessa cena, você também fugiria). O Prince-coringa e sua gangue de batmans e coringas dançam na frente de uma cadeira elétrica por um tempinho até que os batmans confrontam os coringas de uma vez por todas. Quando o Prince-coringa vê que a batalha está perdida ele aperta um botão e a cadeira elétrica explode. Fin.

Não, eu não estou mentindo. Apertem o botão e vejam por si mesmos.

David Bowie- Be My Wife

Bowie se sente só porque ninguem consegue olhar pra boca dele.

E finalmente a doce cereja que coroa nosso sundae de horrores: David Bowie cantando Be My Wife com uma aparência que garante afastar qualquer mulher. Na marca de um minuto ele vira para a câmera e canta mostrando um grotesco e amarelo sorriso inglês. Se quiserem, pulem este trecho; eu sofro de terrores noturnos por causa dele.

E finalmente uma coisinha para elevar seus espíritos, para que suas mentes não saiam no blog com gosto ruim na boca:


E palmas para o YouTube.

Wednesday, June 14, 2006

A Ética e o Humano em O Homem-Aranha

Posso dizer que parte dos meus primeiros valores - e alguns "cristãos" sem esse rótulo - não foram aprendidos na Bíblia ou na freqüentação de igrejas, mas na leitura de HQs. Na leitura do Homem-Aranha, em particular. Eu costumava ler suas histórias por volta dos 11 anos, e adentrei a adolescência fazendo-o. Voltei a ele já adulta, perto dos 30.
As aventuras do HA tem um leitmotiv ético básico: " Grandes poderes trazem grandes responsabilidades" (tema condutor que Sam Raimi, como genuíno fã, recuperou claramente nos filmes recentes com o herói). Ou, quanto maior o poder que você tem, menor é o pretexto para a inércia (um imperativo à ação). Stan Lee, criador do personagem em começos dos anos 60, decerto não sabia o que estava criando: um herói muito jovem, que ganhou seus poderes por acidente e, num primeiro momento de entusiasmo, não os usou como poderia, até que sua irresponsabilidade (talvez seja melhor dizer imaturidade) cobrou seu preço - fazendo do Aranha /Peter Parker uma das figuras mais "humanas" dos quadrinhos de super-heróis, movida por uma compulsão interior como que em busca de resgate do seu erro - ou penitência.
Não apenas isso. Peter, o Aranha, é um jovem inserido num ambiente familiar amoroso, mas economicamente instável; é órfão, criado pelos tios e depois somente pela tia idosa; apaixonado por ciências, usando óculos, é o clássico nerd com baixa popularidade entre os colegas de escola. No campo sentimental, as coisas não são melhores.
"Quanto maior o poder, maior a responsabilidade". É justo? Quando temos tantos problemas, não seria natural termos o direito de cuidar de nós e pronto? Por quê eu deveria me desgastar com os outros, quando tenho tão pouco para mim - pouco tempo, pouco dinheiro, pouca auto-estima, poucas amizades...?
Jesus Cristo disse-nos que não. E eu soube disso ainda na infância, com o Homem-Aranha.
Uma das milhares de HQs do herói é típica: em Despejo , publicada em O Homem-Aranha nº 113 pela Ed. Abril em 1992 (e, nos EUA, na Amazing Spider-Man nº 314 de 1989), Peter Parker acaba de ser despejado do apartamento. É natal. Deprimido, ele está visitando o túmulo de seu tio Ben, "conversando" com este em seus pensamentos, quando ouve ruídos de sirenes... "Sirenes! Agora não, por favor! Deixe que outro resolva isso! Por que sempre eu...?" pensa Peter. E quase imediatamente, seus pensamentos mudam: "Desculpe, tio Ben! Posso estar um pouco deprimido... mas ainda sou eu!" E parte em perseguição ao criminoso, pondo a tristeza pessoal de lado.
Desta forma, o Homem-Aranha nos é apresentado como um personagem ético (ele tem uma escala de valores a que obedece) sem nunca perder sua humanidade; herói, mas humano, ou seja, frágil; com poderes extraordinários, contudo, tentado pelas mesmas crises de depressão e auto-piedade como todos nós.
Já se disse que não é o que nos acontece que determinará o que somos; mas, sim, o que fazemos daquilo que nos acontece. Trata-se de uma escolha feita muitas vezes inconscientemente. Um herói - um herói como o Homem-Aranha - faz sua decisão pelo ético. Em nenhum momento de suas aventuras isso parece fácil. Herói e frágil. O ético e o humano.